segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Intolerância religiosa pode ter motivado ataque a centro espirita


Foto: Elcha Britto



Por Ulisses Lalio
Pela quarta vez este ano, Centro Espirita em Rondonópolis é alvo de arrombamento e incêndio criminoso

Nesta semana um centro espirita na cidade de Rondonópolis (a 220 km de Cuiabá) foi alvo de um incêndio criminoso que pode ter motivação de intransigência religiosa. O fato aconteceu no último domingo (28) na Associação A Caminho da Luz. O local foi vandalizado teve portas arrombadas, salas queimadas e destruição de patrimônios.

Segundo a presidente da instituição, Elcha Britto, esta já é o quarto ataque ao local. “Nós estamos com medo de novas retaliações e destruições da Associação. Nas duas primeiras vezes que o lugar foi arrombado não denunciamos, mas a partir dai fomos a polícia e agora tememos novas investidas”, disse Britto.

A presidente registou o Boletim de Ocorrência de número 2015216709 onde revelou a ação dos vândalos à polícia. A associação faz trabalhos de evangelização para adultos e crianças nos bairros próximos a sede, além de distribuição de sopa e tratamentos espirituais.

Conforme a presidente mesmo após o incidente os encontros continuarão a acontecer no pátio do local, até que a estrutura queimada e destruída seja reconstruída. “Nosso trabalho continuará, mesmo após o ataque. Nós não descartamos nenhuma hipótese, seja de intolerância religiosa a vandalismo sem razão”, concluiu.

Em nota a polícia civil disse que está investigando o caso e que tomará as medidas cabíveis ao caso.

FONTE: Circuito Mato Grosso em 31/07/2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Polícia e família divergem sobre morte de mãe de santo na BA


por Leiliane Roberta Lopes

BAHIA - A delegada Maria Daniele Monteiro, titular da 18ª Delegacia de Camaçari (BA) está investigando a morte da ialorixá Mildreles Dias Ferreira, a Mãe Dede de Iansã, 90 anos, que faleceu de infarto no dia 1º de junho.

A família da mãe de santo acusa os evangélicos da igreja evangélica Casa de Oração Ministério de Cristo de intolerância religiosa, pois um dia antes da morte da idosa os fiéis da igreja realizaram uma vigília.

A delegada não descarta a intolerância religiosa, mas começa a ver, de acordo com os depoimentos, que as falas dos evangélicos não eram direcionadas para a mãe de santo. “Existe a perturbação clara do sossego alheio. A questão da intolerância religiosa não está descartada, mas ainda estamos investigando. Moradores que foram ouvidos não confirmaram que evangélicos se concentravam na porta do terreiro”.

Com o barulho da vigília, Mãe Dede de Iansã não conseguiu dormir e na noite seguinte ela faleceu.

“Mãe Dede passou a madrugada da vigília em claro e na noite seguinte acabou morrendo. Gera desconforto e a gente sabe que falam muito em demônio, então, fica parecendo provocação. Mas fica complicado afirmar porque os cânticos são assim”, comenta a delegada.

Mas a família diz que os evangélicos ficaram na porta do terreiro falando palavras contra a mãe de santo e que os fiéis da igreja constantemente perseguem quem frequenta os cultos do candomblé.

“Mesmo após a morte da minha avó, eles continuam com as provocações. Quando temos visitas, ficam provocando e gritam ainda mais alto com palavreados que prefiro nem reproduzir. Até caixa de som colocam fora da igreja”, conta Bárbara Cerqueira, neta de Mãe Dede segundo o Terra.

A igreja está a pouco mais de um ano no local, funcionando a poucos metros de onde Dede de Iansã mantinha o terreiro de candomblé Oyá Deña, espaço religioso que funciona há 45 anos.

FONTE: Gospel Prime em 20/07/2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Negros e religiões africanas são os mais discriminados, mostra Disque 100

Foto: Annie Belt


Por Mariana Tokarnia Edição:Talita Cavalcante

Em uma quarta-feira, por volta das 16h, o pai de santo Sumbunanji de Kavungo, fazia, em frente à sua casa, no Recife, os rituais tradicionais do candomblé. Oferecia a Exu, guardião dos caminhos e das direções, água, farofa amarela e branca e ovos. Ali começou uma série de agressões que culminaram em ameaças de morte ao religioso. Segundo ele, duas mulheres passaram pelo local e associaram o ritual ao demônio. Nos dias seguintes, o terreiro foi bombardeado duas vezes, e um cartaz com xingamentos foi colocado na porta.

Embora sejam praticadas por 0,3% da população, de acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as religiões de origem africana são as que mais sofrem discriminação. De acordo com os dados do Disque Direitos Humanos, o Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), de 2011 a 2014, do total de 504 denúncias, 213 informaram a religião atacada. Em 35% desses casos, trata-se de religiões de matriz africana.

"Eu perdi minha vida, minha paz, minha tranquilidade, meu conforto, meu porto seguro. A residência é um local sagrado, é um espaço onde estou todos os dias. Perdi minha liberdade de ir e vir, vivo aflito, oprimido e perturbado com essa situação", diz o pai de santo. Os ataques começaram há um mês e hoje, com medo de novas agressões, ele deixou o local e está na casa de parentes.

Proteção

A liberdade de crença é uma das garantias do Estatuto da Igualdade Racial, Lei 12.288/2010, que completa cinco anos nesta segunda-feira (20). A lei protege as religiões de matriz africana e os locais de culto. Apesar do respaldo legal, organizações dizem que há cada vez mais casos de violação desse direito.

Independentemente da religião, os dados mostram ainda que negros são as maiores vítimas. De 2011 – quando o Disque 100 começou a receber denúncias específicas de discriminação religiosa – a 2014, foram feitas 504 denúncias e 597 pessoas foram vítimas do preconceito, pois uma mesma denúncia pode envolver mais de uma vítima. Entre as 345 vítimas que declararam a cor, 210 são pretas ou pardas. O número representa 35,2% do total de vítimas e 60,8% do total de vítimas que declararam a cor de pele.

"O preconceito religioso é real, há discriminação religiosa, mas há de se considerar a questão racial como processo que ainda vigora no Brasil em relação a pretos e pardos", analisa o coordenador de Segurança, Cidadania e Direitos Humanos, da SDH, Alexandre Brasil. "O Disque 100 é um instrumento recente no Brasil e não representa todos os casos de violação. Os dados são importantes para reconhecer e identificar as violações. Eles mostram a presença de discriminação maior em relação às religiões afro-brasileiras. Isso provavelmente é muito associado a questões de racismo e mesmo à história da sociedade brasileira de negação dessa tradição religiosa", acrescenta.

Evangélicos

Em segundo lugar no ranking da SDH, com 27% das denúncias com identificação, está a religião evangélica, praticada, segundo o Censo, por 22,2% da população brasileira. O coordenador explica que o racismo está também na discriminação contra os evangélicos. "A religião que tem mais negros e pardos é a evangélica, em termos quantitativos. E é uma religião muito presente entre os setores mais pobres e entre a população negra, diz".


"A intolerância religiosa pode ser entendida como a extrapolação de uma intolerância maior existente no país, relacionada ao racismo, à pobreza e à desigualdade social."

De acordo com Vera Baroni, da coordenação da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, a intolerância tem sido cada vez maior. "A não aceitação da diversidade religiosa tem crescido muito. Aqui em Pernambuco não se pode usar alguns símbolos das religiões de matriz africana, como se vestir de cor branca", diz ela, que também faz parte do Fórum da Diversidade Religiosa em Pernambuco.

Segundo o coordenador da SDH, 14 estados têm algum colegiado que debate com regularidade o tema da diversidade religiosa. A intenção é que essa iniciativa se estenda a todo o país. Até o final do governo, de acordo com o coordenador, a SDH pretende otimizar o Disque 100 e fortalecer uma rede nacional envolvendo estados, municípios e organizações sociais, para acompanhar essas denúncias e tomar as medidas cabíveis. A rede começa a ser configurada já este ano.


FONTE: Agência Brasil em 19/07/2015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

'A intolerância religiosa sofrerá um refluxo', afirma coordenador do Viva Rio


A primeira edição do evento ‘Conte algo que não sei’ teve a intolerância religiosa como tema de reflexão. Na avaliação do coordenador do movimento Viva Rio, Rubem César Fernandes, a tendência é de que os movimentos frequentes de desrespeito e ataques às religiões, sobretudo as de matriz africana, sofram um refluxo. Rubem César foi o convidado para abordar o assunto ao lado da ouvidora-geral do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), juíza Andréa Pachá. O encontro foi realizado na noite desta quinta, dia 17, na biblioteca do TJRJ.

De família presbiteriana, Rubem César abordou o histórico dos movimentos religiosos desde a ditadura militar e o surgimento das lideranças de direita dentro das igrejas; a relação entre denominações evangélicas e militares; o papel da Igreja Católica e seus movimentos internos e o crescimento dos movimentos pentecostal e neopentencostal após a redemocratização do país.

De acordo com o antropólogo, os movimentos evangélicos atuais – mais ligados ao radicalismo – são expressivos, mas sem solidez, e com representatividade no ambiente social numa conjugação com o racismo, a homofobia e a intolerância. Por esse alinhamento, o coordenador do Viva Rio crê num refluxo, já que existe um quantitativo expressivo de cristãos que não se sentem representados por parte das lideranças evangélicas atuais presentes na política e na mídia de massa. O que falta, segundo ele, é que esse movimento oposto tenha mais visibilidade e visão estratégica.

“Existe uma considerável parcela da população evangélica que não se sente representada em alguns líderes políticos e pastores. Essa boa parcela pode e deve trilhar nos direitos civis sem abrir mão das suas convicções. Agora, não adianta querer bater de frente, pois você afirma que essa representatividade questionável existe. É preciso marcar sua posição”, disse o coordenador do Viva Rio, que prevê nas igrejas reformadas – presbiteriana, metodista, congregacional, entre outras – a possibilidade de se trabalhar dentro do que chamou de ‘congregacionismo’, isto é, na articulação dos movimentos democráticos dentro das igrejas. Da mesma forma, Rubem César salientou que religiões espiritualistas estão encontrando um discurso de defesa das liberdades civis para se posicionar como instituição.

A ouvidora do TJRJ, juíza Andréa Pachá, acredita que a expressão “tolerância religiosa” soa de forma desagradável, pois este é um sentimento limite entre o que realmente deveria – e deve – haver entre as religiões: o respeito. “O Estado tem que proteger a liberdade de religião”, disse a magistrada, que acrescentou: os discursos sobre os direitos humanos e civis precisam ampliar seus horizontes atuais. “A impressão que tenho é que simplesmente falamos para os nossos públicos. É preciso ampliar o debate, e saber como ampliar é um grande desafio”.

Na abertura do evento, o presidente do TJRJ, desembargador Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, ressaltou a iniciativa da Diretoria Geral de Comunicação e de Difusão do Conhecimento (DGCOM) de criar o ‘Conte algo que não sei’. “Este espaço comprova que o tribunal não está se comportando apenas como tribunal, mas como instituição sensível às angústias e anseios da sociedade”, afirmou.

FONTE: Justiça em Foco e Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ)

terça-feira, 14 de julho de 2015

Terreiro de candomblé é atacado em CG e vítima acredita em intolerância

Um terreiro de candomblé de Campina Grande foi alvo de um ataque nesta segunda-feira (13). De acordo com o responsável pelo local, o babalorixá Antonio Caldas, garrafas foram arremessadas para dentro da casa e pessoas do lado de fora gritavam e insultavam a religião.

O caso aconteceu no bairro Jardim Borborema, na Zona Sul do município. Antonio Caldas suspeita de intolerância. "Essa não é a primeira vez que acontece. A gente acorda durante a noite e vê que eles acenderam fogo e jogaram garrafas aqui", conta.

O babalorixá não conseguiu identificar quantas pessoas participaram do ataque. Ele calcula que foram cerca de 20 minutos de gritos e insultos na frente do terreiro. Ninguém que estava dentro do local ficou ferido. Antonio Caldas registrou um boletim de ocorrência, o segundo desde que se mudou para a nova casa.

FONTE: PB Agora em 14/07/2015

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Mulheres muçulmanas lutam contra preconceito no mercado de trabalho

Mulheres muçulmanas contam suas experiências no mercado de trabalho paraibano (Foto: Felipe Ramos/G1 Paraíba)

Para evitar preconceito, algumas abrem mão do véu em algumas situações.
Estudiosos destacam que há visão distorcida, o que gera preconceito.


O véu do preconceito é o que, muitas vezes, distancia as mulheres muçulmanas do mercado de trabalho, uma realidade relatada por algumas delas que moram na cidade de João Pessoa. Segundo as muçulmanas, quando os empregadores percebem estar diante de uma seguidora do islã, tudo fica mais complicado. "Eu nunca fui para uma entrevista com as roupas do islamismo. As pessoas jamais me contratariam usando minhas roupas de muçulmana", contou Carolina Cabral, formada há cinco anos em Enfermagem na Universidade Federal da Paraíba. Desde que se formou, nunca conseguiu uma vaga no mercado de trabalho.


Carolina é filha de João de Deus Cabral, ex-pastor evangélico e hoje um dos líderes do Centro Islâmico, localizado no Bairro dos Estados, na capital paraibana. No local em que os seguidores do Islamismo se reúnem para fazer suas orações e convivências. Segundo ela, cerca de 40 muçulmanos moram atualmente em João Pessoa.

Dentro de si, Carolina guarda um sonho: trabalhar vestida de véu como enfermeira do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ela comentou que certo dia viu a foto de um muçulmana, que é enfermeira de urgência e emergência, com véu e desde esse dia se imagina da mesma forma. "Não me sinto bem sem o véu. É estranho. Não é o mesmo prazer de agradar a Deus. É um sonho trabalhar de véu", comentou.

Contudo, para viver esse sonho ela precisa enfrentar o preconceito. Segundo a muçulmana, o prejulgamento acontece até quando ela está vestida da mesma forma que as pessoas de outras religiões e credos. "Eu vou para as entrevistas de emprego sem o véu, mas quando eles vêm a minha identidade, que é islâmica, logo é dada uma desculpa. É uma coisa mais sutil, porém, percebemos que é porque somos muçulmanas", relatou. Apesar disso, Carolina não pretende desistir, pelo contrário a meta é prestar um concurso para trabalhar no Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa. Ela acredita que assim vai enfrentar em menor proporção o preconceito de ser quem ela realmente é.

Já dentro do mercado, Soraya Vilar, que se tornou muçulmana há pouco mais de um ano, trabalha em canteiros de obras. "Eu não uso o véu no trabalho. Mulher já chama atenção em obras e vestida assim, eu pararia as obras", contou.

Soraya relatou ter ido um dia vestida com as roupas próprias do Islamismo para uma confraternização da empresa. "Eu disse que só ia se fosse vestida", ressaltou. De acordo com ela, chegando no local, muitas pessoas nem se aproximaram dela. Outras ficavam cantando músicas árabes na sua frente. Em busca de profissionalização, ela cursa Direito e durante as aulas usa o véu. No entanto, o ambiente acadêmico foi apontado por Soraya como um local de difícil convivência religiosa. "Já sofri muito bullyng. Fui chamada até de mulher bomba. Essas coisas nós escutamos muito. Mas não dou ênfase a isso, quem me justifica é Deus", frisou. Segundo ela, muitas pessoas da sala de aula evitam o relacionamento. "Muitos nem me olham", disse ela.

De acordo com Luciana Campos, doutoranda em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisadora sobre as poetisas muçulmanas e história dos povos árabes, atualmente há uma confusão muito grande entre o que é o Islã e as notícias que mostram os muçulmanos exclusivamente como terroristas. "Essa visão atrapalha, sim, a imersão das mulheres muçulmanas no mundo do trabalho. Muitas vezes uma candidata a uma vaga de emprego, mesmo tendo todas as qualificações exigidas, é descartada por usar o véu", comentou ela.

Ainda segundo Luciana, elas são mulheres e, portanto, são capazes como qualquer outro ser humano de estudarem e desempenharem qualquer função com competência. "Creio que as qualificações deviam estar na frente das crenças e da vestimenta", explicou. A doutoranda ressaltou que nos dias atuais as mulheres muçulmanas ocupam avançados postos de trabalho e cita como exemplo da década de 1990, o Paquistão teve como Primeira Ministra por duas vezes Benazir Bhutto. Ela também cita que algumas são comissárias de bordo eficientes e competentes que dominam mais de três línguas estrangeiras, são professoras universitárias, médicas, jornalistas.

O Pastor evangélico Flávio Henrique, que trabalha juntamente com a comissão da diversidade religiosa da Ordem dos Advogados da Brasil na Paraíba, diz que todo segmento deve receber as pessoas independentemente da sua religiosidade. "Quando alguém mede o outro pela religião que segue está reduzindo o ser humano, a competência educacional e profissional deve ser levado muito mais em conta", disse.

FONTE: Portal G1 em 11/07/2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

Deputados tentam proibir uso de símbolos religiosos em protestos

Discutido em comissão, Estatuto da Liberdade Religiosa tem artigo que prevê punição a atos como o protagonizado por transexual em cruz na última Parada do Orgulho LGBT de SP

Deputados da base evangélica do Legislativo estão pressionando colegas da Câmara e do Senado Federal a darem apoio a um estatuto que passaria a proibir o uso de símbolos religiosos em protestos, como aquele protagonizado pela transexual Viviany Beleboni na 19ª edição paulistana da Parada do Orgulho LGBT, no início do mês passado.

O episódio, no qual a transexual encenou a crucificação de Jesus para atacar os preconceitos sofridos por homossexuais no País, repercutiu de tal maneira que parlamentares católicos e evangélicos chegaram a fazer protesto em pleno Parlamento para pedir que casos semelhantes fossem enquadrados como crime hediondo pelo código penal brasileiro.

"É um absurdo. Cenas como esta atingem diretamente a família brasileira", criticou, na ocasião, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF), que participou do ato organizado pela Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana e pela Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família no último dia 10 de junho. Rosso é um dos integrantes da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que analisa o texto de autoria de Leonardo Quintão (PMDB-MG).

De acordo com o artigo 44 do Estatuto Jurídico de Liberdade Religiosa (Projeto de Lei 1219/2015), "consideram-se atos discriminatórios e de intolerância contra a liberdade religiosa praticar qualquer tipo de ação violenta, seja esta real ou simbólica, que seja, assim, constrangedora, intimidatória ou vexatória baseada na religião ou crença da vítima". A punição prevista é de multa de 20 salários mínimos (ou R$ 15.760) – 60 para reincidentes (R$ 47.280).

"Aquele ato da parada gay não pode, a meu juízo, ser criminalizado. Pode ser visto como de mau gosto, como excesso, mas não como crime ou contravenção", critica ao iG o advogado Marcelo Figueiredo, presidente da Comissão de Direito Constitucional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Nossa legislação deve continuar assim como está, sem criminalizar nenhuma manifestação cultural ou religiosa, mesmo que aos olhos de terceiro pareça intolerância."

A implantação do estatuto é justificada pelo autor do projeto como uma proteção à liberdade de religião, já prevista na Constituição Federal do País, promulgada em 1988. Segundo o parlamentar, o intuito é garantir "a dignidade da pessoa, patrimônio de cada indivíduo, do qual é possuidor desde o dia de seu nascimento".

Criado por uma comissão da Associação Nacional de Juristas Evangélicos, "por ser uma entidade já experiente nesta luta", como explica Quintão, o texto foi apresentado em meados de junho ao presidente do Senado, Renan Calheiros, ao líder da Câmara, Eduardo Cunha, e ao vice-presidente da República, Michel Temer. Todos, sem exceção, o receberam com promessas de apoio para aprová-lo com rapidez.

"Lutaremos para aprovar o Estatuto na Câmara e, logo em seguida, no Senado, no tempo mais breve possível, de acordo com a dinâmica e os procedimentos do Congresso Nacional", afirma Quintão à reportagem. "O PL 1219/2005 não encontra barreiras do ponto de vista constitucional, legal, jurídico, regimental e de técnica legislativa, pois foi elaborado em conformidade com o ordenamento jurídico pátrio. Assim, vislumbramos que o Estatuto seja aprovado sem empecilhos na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados."

"O mundo mudou"
Símbolo máximo da polêmica em torno do tema, Viviany Beloni não se conforma com a mobilização de deputados sobre o estatuto enquanto projetos de lei como o da homofobia acabaram engavetados por legisladores neste ano.

Após virar o centro das atenções na performance na cruz feita na última Parada do Orgulho LGBT, a jovem de 27 anos viu proliferarem ataques contra ela nas redes sociais – inclusive de deputados da base evangélica do Congresso – e, ao mesmo tempo, aumentarem as humilhações sofridas na rua.

Enumera, em tom indignado, as muitas amigas que perdeu nos últimos anos agredidas e assassinadas como consequência de suas opções sexuais. Diz não sair mais de casa sozinha desde que sua figura ganhou as primeiras páginas dos jornais, quando iniciou o processo de distorção de seu protesto, realizado em 7 de junho. Abriu uma série de ações judiciais contra pessoas que ridicularizaram a sua imagem nas redes sociais.

"Fui à Parada para representar justamente as dores de todas as travestis, transexuais, gays, simbolizando isso com a dor de Jesus Cristo, crucificado, flagelado, humilhado. Não rebolei, não desrespeitei ninguém. Pelo contrário, chorei, abracei a causa, fiquei lá, por cinco horas debaixo do sol mostrando essa dor", lamenta Viviany.

"Se a proibição dos símbolos dos religiosos for aprovada, ainda mais antes da lei que criminaliza a homofobia, vai ser o fim do mundo, além da prova viva da panelinha que temos lá dentro do Congresso. Já cansei de sofrer agressão. Todo dia me chamam de traveco, de viado... Depois que repercutiu este protesto da Parada Gay me ligaram várias vezes me ameaçando, e continuam a fazer isso. Falam que sou uma puta, uma vadia, que tenho de trabalhar na rua e morrer de HIV."

Ataque a minorias
Além do ponto que proibiria o uso de símbolos religiosos em atos como o protagonizado por Viviany, o que deve se estender para casos como charges e quadrinhos como os publicados pelo jornal satírico "Charlie Hebdo" – alvo de ataque terrorista no início do ano que deixou 12 mortos –, o estatuto também dá uma espécie de carta branca a lideranças religiosas para, embasadas em suas crenças, atacarem minorias.

De acordo com o parágrafo 2º do artigo 9 do texto, "não se considera crime, na forma de discurso de ódio, a divulgação, na esfera pública ou privada, de ideias de uma religião contrárias a um determinado comportamento social ou mesmo crença de um determinado grupo, religioso ou não, desde que feitas pacificamente, com urbanidade, tolerância e respeito aos direitos humanos fundamentais."

"É desnecessário e até um tanto perigoso dizer que as pessoas têm esse direito à critíca", avalia o advogado especialista em Direito Constiucional Marcelo Figueiredo. "O pastor tem o direito de falar se aquilo está na Bíblia, inclusive o que o casamento é algo entre homem e mulher, que é o que a fé dele diz", ameniza outro profissional especializado no tema, Dircêo Torrecillas Ramos. "Mas Direito é algo muito subjeivo. Caberá ao juiz, evitando quaisquer embasamentos em sua fé, avaliar caso a caso e definir quando houve exagero ou não."

Autor da proposta, Quintão defende o texto e garante que a proteção dada à liberdade religiosa pelo estatuto "em nada se relaciona com a discriminação e preconceito que ocorrem contra os grupos sociais minoritários, como os homossexuais". "A luta pela liberdade religiosa e a luta pelo fim da discriminação contra minorias não são excludentes ou antagônicas, como pode ser erroneamente interpretada por alguns", afirma o deputado.

No dia 17 de junho, Renan Calheiros disse em encontro com lideranças religiosas que acompanharia de perto a tramitação do projeto na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e que discutiria a abertura de um calendário especial na Casa apenas visando a sua rápida análise. Na mesma semana, Michel Temer e Eduardo Cunha também receberam o texto, demonstrando empolgação e posando sorridentes para fotos ao lado de lideranças religiosas.

Composta por 80 deputados – incluindo Quintão e alguns nomes polêmicos, como Marco Feliciano –, a Frente Parlamentar Evangélica da Câmara, principal apoiadora do estatuto, é a mesma que há anos se mobiliza contra a aprovação do projeto de lei que criminalizaria a homofobia, engavetado pelo Senado Federal em janeiro.

Parte do mesmo grupo de religiosos, o presidente da Câmara prometeu que instalará uma comissão especial para que deputados já comecem a se dedicar à discussão do estatuto e à sua posterior aprovação. 

FONTE: Último segundo em 07/07/2015