segunda-feira, 29 de junho de 2015

Terreiro de candomblé é destruído. Praticantes recorrem à Assembleia

Após a demolição de um terreiro de candomblé, há cerca de duas semanas, grupo recorre ao Escritório Frei Tito de Alencar, da Assembleia Legislativa, para pedir segurança e punição dos responsáveis

O Escritório Frei Tito de Alencar, órgão de defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, deve reunir, nos próximos dias, materiais para oferecer denúncia pelo ataque sofrido no terreiro de candomblé Ilê Axé Oloiobá, há cerca de duas semanas. O local onde acontecem os encontros religiosos, na Cidade Nova, divisa entre Fortaleza e Maracanaú, teve o prédio parcialmente destruído durante a madrugada. Cerca de 10 pessoas - integrantes do grupo - recorreram à advogada do escritório, Luanna Marley, que deve pedir apoio à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ao Ministério Público Estadual e à Justiça. A suspeita é que o crime tenha sido motivado por preconceito religioso.

O escritório deve entrar com três ações judiciais. A primeira é de usucapião (já que o terreiro existe, no mesmo local, há mais de 25 anos, mas o dono não tem o documento de propriedade). A segunda é em relação ao crime cometido no local. A terceira é de indenização por danos morais. “Não podemos admitir que crimes dessa natureza permaneçam impunes e os criminosos ajam livremente”, apontou a advogada.

“Queremos realizar nossos encontros como sempre ocorreram, com muita fé e segurança”, confirma Marcos da Justa Teixeira, conhecido como Marcos de Oxissi. A ideia de procurar proteção, segundo Marcos, veio após a agressão de uma criança, no Rio de Janeiro, apenas por estar com roupas do candomblé.

Maria Zelma de Araújo Madeira, titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial do Ceará (Ceppir/CE) defende que a questão das minorias, no Ceará, sempre foi levada em segundo plano por conta do machismo. “Combatemos a intolerância religiosa, machismo, homofobia. Lutamos conjuntamente para a transformação social”, confirma.

FONTE: O Povo online em 25/06/2015

Babalaô defende plano para combater intolerância religiosa

Babalaô Ivanir dos Santos (c), da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, cobrou a criação de um plano nacional da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da Repúbica para enfrentar violência.foto: Fernando Frazão/ABrRio de Janeiro

Rio de Janeiro - Atos de intolerância religiosa contra adeptos da umbanda e do candomblé não são casos pontuais, afirma o babalaô Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Por isso, ele cobrou, na sexta-feira (26), do ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas, a elaboração de um plano nacional para enfrentar o problema no País.

Em audiência pública no Rio de Janeiro, na seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RJ), para prestar solidariedade à menina Kayllane Campos, de 11 anos, atacada com uma pedrada na cabeça há poucos dias, quando vestia indumentária do candomblé, o babalaô (babalawo em yorubá) disse que casos de intolerância são frequentes contra crianças – em escolas, principalmente – e templos religiosos. Segundo ele, é necessária uma ação articulada de Estado para identificar e responsabilizar os culpados pelos casos.

“Um plano é fundamental, um plano que abra uma discussão nacional e que chame eles (setores conservadores e fundamentalistas) para o debate”, disse Ivanir. “Nosso papel é continuar construindo a possibilidade visionária de uma sociedade que se respeita”, acrescentou. O babalaô diz que tem de constar do plano de delegacias especializadas e ações para garantir a Lei 10.639/2003, que obriga o ensino da cultura e da história afro-brasileira nas escolas, além da promoção de uma cultura de tolerância e respeito às diferenças na sociedade.

O ministro Pepe Vargas concordou com a necessidade de uma estratégia de combate à intolerância religiosa e prometeu conversar com a ministra Nilma Lino, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. “Estamos dispostos a construir um processo dessa natureza. O caso da Kayllane não é um fato isolado”, destacou o ministro. Segundo ele, para que o plano nacional dê certo, é necessário envolver também os governos estaduais e municipais, bem como o Judiciário.

De acordo com Ivanir, muitas crianças do candomblé e da umbanda são proibidas de usar guias (colares religiosos) em sala de aula. São xingadas e humilhadas, enquanto outras não têm liberdade para praticar a fé, por intervenção do próprio Estado. “Há conselheiros tutelares evangélicos, por exemplo, que usam a função para tirar crianças do roncó (cerimônia de iniciação em que a criança fica reclusa”, disse.

Na audiência, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa informou que lançará, no dia 18 de agosto, um dossiê com casos de intolerância religiosa em todo o País, listando episódios que culminaram, inclusive, em mortes. A instituição avalia até mesmo a possibilidade de denunciar o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que analisa violações de direitos nos países.

FONTE: D24am em 27/06/2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Religiosos pedem a criação de delegacia para crimes com motivação religiosa

Por Clarissa Monteagudo

A pedra que atingiu a menina Kailane Campos, de 11 anos, na última semana, na Vila da Penha, é uma das faces de um crime que acontece todos os dias, muitas vezes de forma silenciosa: a intolerância religiosa. Aos 8 anos, Leandra Gabrielly também já foi vítima do preconceito. Ano passado, no colégio, um colega arrebentou o terço que a menina usava. Disse que pertencia “ao diabo”. Alarmada, a mãe da criança, a cabeleireira Daniele Porto, conta que foi à escola cobrar providências sobre o caso.

— A professora de ensino bíblico puxou o cordão que eu usava, dado por um cigano, e disse que eu pertencia ao diabo. Que eu não era de Deus. Fiquei em depressão, minha filha sofreu muito. A mãe do menino dizia que eu era satânica. Ela (Leandra) ficava sentada na última carteira, isolada dos outros alunos — conta Daniele, umbandista.


Daniele diz que está em depressão depois que a filha, Leandra, sofreu bullying na escola Foto: Roberto Moreyra



Quem sofre com atos de intolerância esbarra na falta de empenho do estado para punir os crimes. Comerciante e presidente do Movimento Umbanda do Amanhã, Marco Xavier já fez 40 registros de ocorrência contra vizinhos do seu terreiro, em Santíssimo. A última agressão foi gravada em vídeo: o grupo passa e destrói as oferendas e velas.

— Desde 2009, já quebraram vidros a pedradas, arrancaram luminárias, na hora da sessão, eles botam caixas de som na janela e som de exorcismo a todo volume. A polícia e o Ministério Público não fazem nada — reclama Marco Xavier.

Para o interlocutor da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, a solução para o caso seria a criação de uma delegacia especializada em crimes de racismo e intolerância religiosa.

— Os dois crimes são interligados. A polícia tem que identificar os líderes religiosos que movem esses agressores. Não é para fomentar o ódio. Mas as lideranças têm que ser responsabilizadas por esses discursos. Eles satanizam em suas doutrinas — defende Ivanir.

Para ele, a sociedade passou a enxergar e exigir a punição para crimes de intolerância religiosa:

— Isso sempre aconteceu, mas passava despercebido. Hoje, os casos detonam clamor na opinião pública.

Casos sem punição

Mais de 40 casos de intolerância religiosa foram acompanhados por pesquisadores do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (Ineac), da Universidade Federal Fluminense. A conclusão é frustrante para os religiosos: nem a polícia nem o Judiciário ainda “enxergam” os atos de intolerância como um crime que atinge a identidade das religiões de matriz africana.

— Na lógica policial, o conflito deve ser resolvido entre as pessoas. São tipificados como casos de menor potencial ofensivo, como insultos, e vão para os juizados. Quando não são “bicados”, o que acontece quando o policial convence a vítima a não registrar porque “nada vai acontecer”, são vistos como conflitos privados. São chamados de casos “de feijoada” ou “fubazada”, que remetem à cozinha — explica a pesquisadora Roberta Boniolo.

A Comissão de Combate à Intolerância defende que os crimes de intolerância religiosa sejam enquadrados na Lei Caó, que prevê de dois a cinco anos de prisão.

— De fato, os operadores de Direito acham que é “briga de vizinho”. Assim como a violência contra a mulher, que eles acreditam ter que ser resolvida na esfera doméstica. Enquanto as vítimas querem retratação quanto à sua identidade religiosa — explica o pesquisador do Ineac, Victor Torres de Mello Rangel.

Manifestação acontece hoje

Hoje, às 10h, no Largo do Bicão, milhares de religiosos vão fazer um protesto em desagravo contra a agressão sofrida por Kailane. Durante a semana, o prefeito Eduardo Paes, e o arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, se reuniram com a criança e seus familiares para prestar solidariedade.

Vários atos de vandalismo essa semana despertaram a opinião pública para uma onda de violência religiosa. Em Uberaba, o túmulo do médium Chico Xavier foi atingido por vândalos. Na Lagoa, o dirigente do templo Casa do Mago, Ubirajara Pinheiro, denunciou que três homens com Bíblias nas mãos apedrejaram o local, quinta-feira. Uma estrela, uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida e estátuas de Buda teriam sido atingidas, mas nenhuma foi danificada.

— Também existem casos de terreiros depredados, mas os dirigentes não querem registrar de jeito nenhum. Têm medo por causa do tráfico — conta Ivanir dos Santos, que conta com o apoio de lideranças evangélicas na manifestação contra a intolerância.

Kailane foi agredida por dois homens. O caso foi registrado na 38ª DP (Irajá).

Relembre casos

Na Bahia - Mãe Dede de Iansã, Mildreles Dias Ferreira, de 90 anos, faleceu na madrugada do dia 1º, após sofrer um infarto fulminante que teria como principal causa a perseguição sofrida ao longo de um ano, desde que uma igreja evangélica se instalou em frente ao terreiro Oyá Denã, na Bahia. Militantes contra a intolerância de todo o Brasil se uniram em manifestações em solidariedade.

Depredação - O centro de umbanda A caminho da paz, na Rua Manoel Alves, no Cachambi, foi invadido e depredado em fevereiro deste ano.

Agressão - Em 2009, a Faetec emitiu nota pedindo desculpas ao aluno Felipe Pereira, então com 13 anos, por ter sido chamado de “filho do capeta” por uma professora.

Invasão - Em junho de 2008, a depredação do Centro Espírita Cruz de Oxalá, no Catete, gerou revolta e mobilização entre segmentos religiosos.


FONTE: Jornal Extra em 21/06/2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Mais pedras virão?



Por Rafael Soares de Oliveira (Diretor-executivo de Koinonia)

A recorrência com que os atos de intolerância acontecem na rua indica que o agressor não teme praticar crimes

Rio - Esta semana, um crime de ódio contra uma menina de apenas 11 anos deixou perplexos todos aqueles que têm esperança de experimentar a liberdade plena de culto no Brasil. O que pode fazer com que alguém se sinta autorizado a discriminar, ofender e agredir publicamente o outro? Que espécie de respaldo imaginário leva criminosos a investir até mesmo contra uma criança, certos de que feri-la — ou quem sabe acabar com sua vida — é a coisa certa a fazer? São perguntas que não podem esperar.

A convicção dos agressores se fia em lei diferente daquela que rege a nós, brasileiros, num Estado laico. É a partir de uma leitura distorcida do sagrado que conseguem enxergar estranha pertinência no desejo de acabar com o diferente. Certos de que são o povo eleito e de que o adversário imaginário é o mal absoluto, atiram, infelizmente, muitas pedras. Convencidos de que são os escolhidos, querem separar em vida e na história o “joio do trigo”. Mas isso não seria antievangélico?

Na raiz da separação entre um “nós” de eleitos e um “eles” daqueles que devem ser eliminados, qualquer semelhança com o Estado Islâmico, ‘apartaides’ e fascismos é mera realidade! A tomada do Congresso pelas pautas desse grupo que surfa na popularidade reacionária do conservadorismo deve ser combatida, com democracia e direitos.

No mesmo Congresso vai sendo aprovada a lei da menoridade penal. Ainda corre entre comissões proposta esdrúxula de ‘Estatuto da Liberdade Religiosa’, cheio de jabutis para proselitismo entre povos indígenas, fim de punições para agressões religiosas na mídia e outras coisas exóticas que confundem liberdade com liberação para fazer imposição sobre o outro, para pregar a negação de outra fé e oficializar os eleitos apedrejadores.


Também chama atenção a recorrência com que os atos de intolerância acontecem em espaços públicos, indicando que o agressor não teme praticar seus crimes, talvez por imaginar que está acima das leis. O pior é que o limite entre delírio coletivo e realidade vai se estreitando e pode até vir a se desfazer. Com a expansão do conservadorismo religioso, refletido no Legislativo, a suposta lei que legitima a pedrada aproxima-se perigosamente das leis de verdade. E aí muito mais pedras virão.


FONTE: Jornal O Dia em 19/06/2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

RJ lidera denúncias de discriminação religiosa contra crianças: 16 em 4 anos



Jovem de 11 anos foi agredida no domingo (14) com pedrada (Foto: Reprodução/TV Globo)


No domingo, menina levou pedrada na cabeça quando voltava de ritual.
Números são da Secretaria de Direitos Humanos, registrados até 2014.

A agressão a uma criança de 11 anos no último domingo domingo (14), atingida por uma pedrada quando voltava de um ritual de candomblé, expõe um problema que é mais comum no Rio de Janeiro do que em outros estados do país, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH): a intolerância religiosa.

Um levantamento feito pelo G1 com números de 2014 do Disque 100, que recebe telefonemas anônimos sobre vários tipos de violência (da doméstica à homofobia), mostra que o estado liderou naquele ano o registro de denúncias relacionadas à religião em todas as faixas etárias. Além disso, entre 2011 e 2014, o Rio foi a unidade da federação com maior número de discriminação religiosa contra crianças e adolescentes.

Durante esses quatro anos, foram 16 denúncias de intolerância religiosa contra os jovens. O segundo estado com maior número de casos nesta faixa etária é São Paulo, com 11. Em terceiro, aparecem Bahia e Ceará, com menos da metade das denúncias do Rio: sete.

Os dados do Disque 100 vão somente até 2014 – já que são divulgados somente ao final do ano em curso. Naquele ano, o Rio também ficou à frente no ranking geral. Entre todas as idades, foram 39 denúncias. O registro é o maior em números absolutos, mas também é o maior na proporção de denúncias por 100 mil habitantes: 0,24. A inglória primeira colocação foi alcançada após um aumento considerável de casos no estado. De 2011 para 2012, saltou 500%; e de 2012 a 2013, 116,67%.

No ano seguinte, os registros ficaram estáveis no estado e diminuíram em São Paulo – até então o estado com mais casos de discriminação religiosa. Com isso, o Rio acabou passando à frente.

Segundo a pesquisa, a maior incidência de registros ocorre entre vizinhos. No entanto, não são raros os casos entre pai, mãe, familiares próximos e até mesmo professores e diretores de colégio. Outro dado curioso mostra que, muitas vezes, a discriminação acontece na casa da vítima. A rua, como foi o caso da jovem de 11 anos do último domingo, fica em segundo lugar.

'Fecho o olho e vejo tudo de novo'
A marca da violência está na cabeça de Kailane Campos, que é candomblecista e foi apedrejada na saída de um culto, na Vila da Penha, Subúrbio do Rio, no último domingo (14).

“Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que eu fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, disse nesta terça-feira (16) a menina de 11 anos.

Na delegacia 38ª DP (Brás de Pina), o caso foi registrado como preconceito de raça, cor, etnia ou religião e também como lesão corporal, provocada por pedrada. Os agressores fugiram em um ônibus que passava pela Avenida Meriti, no mesmo bairro. A polícia, agora, busca imagens das câmeras de segurança do veículo para tentar identificar os dois homens.

A avó da criança lançou uma campanha na internet e tirou fotos segurando um cartaz com as frases: “Eu visto branco, branco da paz. Sou do candomblé, e você?”. A campanha recebeu o apoio de amigos e pessoas que defendem a liberdade religiosa. Uma delas escreveu: “Mãe Kátia, estamos juntos nessa”.

FONTE: G1 de notícias em 17/06/2015

Casa onde Mãe Stella cresceu será transformada em centro de referência de candomblé

Uma casinha pequena, com a fachada rosada, guarda o início da história de uma das maiores yalorixás do país: Mãe Stella de Oxóssi, líder do Terreiro Ilê Axé Opó Afonjá. Localizada na Ladeira do Ferrão, nº 6 - que dá acesso do Pelourinho para a Baixa dos Sapateiros - no Centro Histórico de Salvador, a residência é o local onde a mãe de santo nasceu e viveu até os cinco anos.



Casa onde nasceu Mãe Stella de Oxóssi será Centro de Referência sobre principais yalorixás baianas (Foto: Terreiro Afonjá/Divulgação)



Agora, ainda como parte das celebrações dos 90 anos de Mãe Stella, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) vai transformar a casa no Centro de Referência Odé Kayodê. O futuro centro terá um caráter multidisciplinar e multimídia, abrigando produções científicas, acadêmicas, audiovisuais e sonoras que reverenciem as principais yalorixás baianas.

“A ideia é fazer um centro de referência e não um memorial. Queremos um lugar que abrigue o conhecimento a cerca desse universo do candomblé, focado nas yalorixás da Bahia”, explica Roberto Pelegrino, gerente de Patrimônio Imaterial do Ipac. Segundo ele, a intenção é disponibilizar a informação de maneira dinâmica, sempre atento às novas tecnologias. “Que tenha esse apelo das mídias modernas, e se torne um atrativo pra todas as pessoas”, esclarece.

Ainda no início do processo de reforma, o projeto vai contar o auxílio do Centro de Documentação e Memória (Cedom) do Ipac, que fica a poucos metros da sede do novo espaço, na Rua Gregório de Mattos, nº 29, no Pelourinho. “O Cedom vai ser um dos braços do espaço, com seu acervo que vai ser constantemente alimentado”, afirma Roberto.

A moradora ilustre da casa número seis ficou feliz com a notícia. O imóvel, que já pertencia ao quadro imobiliário do Ipac, traz boas lembranças do tempo de menina. “Lembro da minha mãe, do jeito especial como ela cortava lima para mim, que era um jeito dela”, recorda Mãe Stella.

Terceira de seis filhos, a mãe de santo, que nasceu na residência, de parto normal, no dia 2 de maio de 1925, ainda lembra de uma situação engraçada que presenciou. Um dia, um funcionário da vigilância sanitária visitou a casa a fim de fiscalizar se havia larvas de mosquitos nos potes de água. A mãe de Mãe Stella, sempre muito cuidadosa, sabia que em sua casa não havia larvas. “Ela era muito calada, falava baixo. Mas ele foi grosso e ela, então, simplesmente tacou o pé no pote e quebrou”, recorda, entre risos.

Para a matriarca do Terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, a iniciativa demonstra o respeito dos baianos a sua própria cultura. “Antes, só o estrangeiro ela valorizado para os brasileiros e baianos. É bom ver que agora os baianos estão valorizando o seu povo”, diz a mãe de santo, que amanhã, às 9h30, participa da apresentação do documentário Folhas Encantadas, desenvolvido pela equipe da professora Alessandra Caramori, do Instituto de Letras da Ufba, no auditório do PAF 3, no Campus de Ondina.

Ainda não há data para a entrega do Centro de Referência Odé Kayodê. De acordo com o gerente de Patrimônio Imaterial do Ipac, o projeto ainda está na fase de reforma da casa. “Fizemos uma vistoria há umas duas semanas. Já foram feitas obras de reforma do telhado, por exemplo, e estamos procurando acelerar na medida do possível”, revela Roberto.

FONTE: Jornal Correio em 17/06/2015

Vítima de intolerância atingida por pedra está com medo de usar branco, diz avó

Menina de 11 anos, candomblecista, foi atingida por uma pedra na cabeça por um grupo de evangélicos, segundo testemunhas

Foto:  Reprodução Facebook


Por Adriano Araújo

Rio - Atingida por uma pedra na cabeça por usar trajes típicos do candomblé — a roupa branca — Kailane, de 11 anos, ainda tenta superar a agressão, sofrida no último domingo. Desde o episódio, ela evita usar a vestimenta que representa a sua religião.

"Fisicamente ela está bem, só as vezes na hora de dormir que ainda sangra um pouco. O psicológico que está complicado. Ela não quer colocar branco nem para ir ao portão", disse Kathia Coelho Maria Eduardo, avó de Kailane e conhecida no centro que ambas frenquentam como Vó Kathi.

A menina foi atingida após deixar o Centro Inzo Ria Lemdá Angola Tumbajunsara, na Vila da Penha, por um grupo de evangélicos, segundo testemunhas. Entretanto, Vó Kathi evita condenar qualquer religião.

"O sentimento é de repúdio pela atitude. Mas não estou atacando igreja nenhuma, são casos isolados de pessoas que usam as religiões para cometer crimes. Eles são criminosos, pessoas doentes, sem Deus", desabafou a candomblecista praticante há 36 anos.

Passeata será realizada nesta sexta-feira

Nesta sexta-feira, às 19h, um grupo formado por ogãs — protetores e prestadores de serviços dentro das religiões afro — realizará uma passeata para protestar contra a intolerância religiosa. Os manifestantes vão se concentrar no Largo do Bicão, na Vila da Penha, e percorrerão toda a Avenida Meriti, onde aconteceu o episódio, até a Praça do Cimento Branco, em Cordovil.

Segundo Elmo Banda de Muká, que organiza o ato, o caso com a menina Kailane é intolerável. "É lamentável. Minha mãe é zeladora (mãe de santo) e meu pai é evangélico. E vivemos em harmonia. Cada um seguiu a sua religião. Aconteceu na Bahia e agora no Rio. Isso não é da religião e sim da índole da pessoa. Queremos dar um basta nisso", disse.

FONTE: Jornal O Dia em 17/06/2015